Entrevistas: Agrupamento de Escolas da Trofa e Agrupamento de Escolas Raul Proença

Duas escolas, ambas bem colocadas nos exames de 2015, com um número semelhante de exames realizados no ensino secundário, mas com contextos socioeconómicos diferentes (mais favorecido e menos favorecido). A ideia desta entrevista é conhecer um pouco melhor a realidade de ambas as escolas e verificar diferenças e semelhanças apesar dos seus contextos.

As respostas a preto pertencem ao Diretor Paulino Macedo, do Agrupamento de Escolas da Trofa (Porto), incluída num contexto menos favorecido. As respostas a laranja são do Diretor João Silva, do Agrupamento de Escolas Raul Proença(Caldas da Rainha-Leiria), incluída num contexto mais favorecido.

ENTREVISTA

Os resultados obtidos em 2015 são semelhantes aos obtidos em anos anteriores, ou são a exceção?

O Agrupamento de Escolas com a configuração atual foi constituído com a agregação da Escola Secundária da Trofa ao Agrupamento Vertical de Escolas da Trofa em julho de 2012. O histórico comparativo é, portanto, reduzido, mas, sim, os resultados escolares obtidos em 2015 são, com algumas exceções pontuais que estamos a analisar, muito semelhantes aos de anos anteriores com ligeiras melhorias em algumas disciplinas.

Os resultados da Escola Secundária Raul Proença têm apresentado uma grande consistência ao longo dos últimos anos, não havendo oscilações dignas de registo.

Como sabemos, os resultados obtidos são o produto da conjugação de diferentes variáveis. Entre elas, a qualidade e estabilidade do corpo docente, os índices de indisciplina, o modelo pedagógico instituído, os pais, os alunos, os assistentes operacionais, entre outros. Como caracterizaria cada uma destas variáveis, na sua escola/agrupamento?

Corpo Docente

Corpo docente muito estável. A exceção é o 1.º ciclo que em ano de concursos é permeável a situações de mobilidade.

Apresenta uma grande estabilidade, mais de 90% dos docentes são do quadro, e são, no seu conjunto, excelentes profissionais. Os níveis de assiduidade são extremamente elevados.

Disciplina

As escolas têm um clima muito calmo. Não temos casos de indisciplina muito graves. Temos situações do dia a dia. Constatamos, como eventualmente acontecerá em muitas escolas do nosso país que a indisciplina se desloca dos recreios para o interior da sala de aula. É o “está quieto”, “está atento”, “trabalha”, “tira o material da mochila” que provoca casos de rejeição à autoridade do professor e potencia situações de indisciplina.

Não temos problemas graves de indisciplina e sempre que aparece alguma situação agimos com grande celeridade. Os profissionais que trabalham na escola são extremamente exigentes neste capítulo e têm o apoio da direção. Procuramos envolver sempre os encarregados de educação para que as medidas adotadas sejam mais eficazes.

Modelo Pedagógico

Desenvolvemos um programa de apoios e tutorias aos alunos identificados com dificuldades de aprendizagem. Criamos um gabinete do aluno (GA) que acolhe, com uma tarefa de natureza pedagógica prescrita, os alunos que são colocados fora da sala de aula, criamos um gabinete de informação ao aluno (GIA) com o objetivo de os informar e acompanhar e criamos um gabinete de acompanhamento de situações de carência económica.

O nosso Plano Anual de Atividades é rico e nele integramos as atividades das várias associações de pais, da associação de estudantes e com maior predominância todas as atividades propostas pelos Departamentos Curriculares.

Na Escola Raul Proença apenas funcionam os apoios educativos, os quais são aplicados assim que o respetivo Conselho de Turma deteta dificuldades. Após o términus das aulas, também proporcionamos apoios aos alunos que vão a exame.

Pais

Em todas as escolas do Agrupamento está formalmente constituída uma Associação de Pais e Encarregados de Educação. Os presidentes destas constituem uma comissão de presidentes (CAPEAT) com o objetivo de reunir com o Diretor e outros Órgãos. Além desta comissão, cada turma elegeu 2 encarregados de educação que os representa em assembleia de representantes para tratar de assuntos de interesse do Agrupamento em geral ou de cada turma em particular.

Digamos que é uma escola aberta à comunidade cuja intervenção/participação dos pais é sempre bemvinda.

Na sua maioria, os pais são interessados e acompanham o percurso escolar dos seus educandos. Normalmente, estão disponíveis para colaborar com a escola. Também existem situações em que a comunicação com os encarregados de educação é difícil, mas são situações mais residuais.

Assistentes Operacionais

Como em muitas escolas do nosso país o n.º de Assistentes Operacionais é muito escasso para o número de alunos e dimensão das instalações escolares.

Acresce a isto a dificuldade em gerir Assistentes Operacionais do mapa de pessoal da Câmara Municipal, portanto, com uma tutela, e Assistentes Operacionais do mapa de pessoal do Ministério da Educação.

Esta situação apresenta no dia a dia muitos constrangimentos.

São um corpo coeso que apresenta grande estabilidade e são muito profissionais. Sentem orgulho no trabalho que fazem e os alunos destacam sempre a sua afabilidade.

Alunos

Alunos de contextos socioeconómicos não muito favorecidos e com expectativas muito baixas em relação à escola. Alunos oriundos de contextos industriais, mas com alguma relevância, ainda, o contexto agrícola. O desemprego é acentuado e consequentemente uma percentagem muito elevada tem apoio do ASE.

Os alunos e os seus encarregados de educação conhecem o nosso projeto educativo e a nossa forma de funcionar. Quando nos procuram sabem que a escola está predominantemente orientada para o prosseguimento de estudos e que lhes proporciona as condições para atingirem os seus objetivos. São alunos que na sua maioria tem expectativas elevadas, o que contribui para o seu bom desempenho. Ao nível do ensino profissional, os alunos também apresentam elevados níveis de desempenho e a sua qualidade é reconhecida pelas empresas onde fazem a formação em contexto de trabalho.

Infraestruturas

Escolas recentemente requalificadas e outras a necessitar “urgentemente” de requalificação.

As infraestruturas são o nosso ponto fraco, não fomos intervencionados pela Parque Escolar e neste momento a escola precisa de obras de fundo. As coberturas, as janelas, as casas de banho, …, precisam urgentemente de obras. Não temos um auditório, o que é uma necessidade premente para a quantidade de atividades que desenvolvemos.

Ag Raul Poença

A sua escola é uma escola “alinhada”?

Sim alinhada. Os desvios entre os resultados internos e externos situam-se, em média, em 3 pontos de diferença.

A Raul Proença é uma escola alinhada segundo a análise do ministério. Em algumas disciplinas apresentamos resultados internos inferiores ao que seria esperado, face aos resultados obtidos nos exames.

A sua escola estabeleceu algum contrato (ex: autonomia) com a tutela? Este contribuiu para os bons resultados que foram obtidos?

Não.

A Escola Raul Proença faz parte do Agrupamento de Escolas Raul Proença, o qual tem contrato de autonomia. Contudo, considero que a autonomia que nos é dada é tão limitada que não tem reflexo nos nossos resultados.

É da opinião que o contexto socioeconómico determina os resultados escolares, em particular nos exames?

Sem dúvida. O contexto socioeconómico tem influência nos resultados escolares das nossas escolas. Temos a consciência, por conhecimento empírico, porque temos a noção da nossa realidade (contexto não muito favorecido) e do esforço que desenvolvemos para que os nossos alunos alcancem estes resultados.

A palavra determina é muito forte e vai contra um papel muito importante que a escola deve ter, o de proporcionar a igualdade de oportunidades. Mas não devemos ignorar esta variável porque tem um impacto muito significativo nos resultados obtidos pelos alunos. No entanto, considero que o nível de escolaridade dos encarregados de educação é o mais decisivo.

Denotou uma maior procura por parte dos pais em virtude dos resultados obtidos?

Não. O Concelho da Trofa é relativamente pequeno e o leque de escolha de escolas não é grande. Aliás só existe uma Escola Secundária.

O aumento da procura não é um fenómeno recente na Raul Proença, sempre fomos uma escola muito solicitada. Mas reconheço que os resultados obtidos nos dão maior visibilidade.

Que opinião tem sobre os rankings escolares?

Temos que saber interpretá-los e dar-lhe o valor que têm para nós Escola (Comunidade Educativa) e para os mass media.

Enquanto ordenação (ranking) das escolas boas e más não tem valor nenhum.

Os rankings não são a solução para todos os problemas, nem são a causa de todos os problemas.

Acaba por ser uma análise um pouco superficial, não sendo contempladas inúmeras variáveis. Contudo, não deixam de ser um indicador do trabalho que é realizado e, para uma escola que fica na tão falada “província”, os resultados que temos obtido são um incentivo e um reconhecimento do nosso esforço.

Sobre as recentes medidas implementadas pelo Ministro Tiago Brandão, nomeadamente as provas de aferição, qual é a sua opinião?

A Avaliação de alunos é tema que merece ser tratado de forma mais abrangente e mais aprofundadamente. Dentro daquilo que se costuma, em outras matérias apelidar por conseguir um “pacto de regime” para uma década. Não podemos andar sempre a fazer alterações.

No entanto, pensamos que os exames ao nível do ensino básico não podem ser instrumento de seleção. A cultura da nota que leva tantas vezes à retenção merece uma análise mais profunda.

Penso que voltamos sempre aos mesmos erros, as mudanças na educação são constantes e não deixam estabilizar o trabalho desenvolvido. A estabilidade do corpo docente é das coisas mais determinantes para o sucesso de uma escola e a estabilidade nas regras pelas quais se rege a educação devia ser a pedra de toque. Não se podem/devem fazer mudanças tão radicais a meio do ano letivo e se algumas poderão fazer sentido, outras parecem muito precipitadas. Defendo que em educação se devem ir fazendo pequenos ajustes e não revoluções. Os exames a meio de maio eram uma grande perturbação para as escolas, mudar o momento da realização para depois do fim das aulas é uma medida positiva. Agora, alunos do 8º ano de escolaridade saberem em janeiro que afinal vão ser sujeitos a provas de aferição, é não respeitar alunos, encarregados de educação e professores.

Quais as áreas que o atual Ministro devia dar maior destaque durante o seu mandato?

Só é possível defender a escola pública e consequentemente, à semelhança do que acontece na saúde e/ou outras áreas, um Serviço Nacional de educação se a ação da Escola for recentrada na aprendizagem dos alunos.

Por isso, entendendo a necessidade de qualquer ministro, seja de que área política for, deixar a sua marca na passagem pelo ministério, reformar por reformar não nos levará a lado nenhum.

É urgente uma definição do perfil de saída dos alunos no ensino básico e no ensino secundário.

Este desígnio arrasta atrás de si a necessidade de revisão dos currículos e programas, dos desenhos curriculares das turmas (horários), da formação dos professores, do regime de funcionamento das escolas, etc.

A implementação destas “reformas” deve ser acompanhada de meios/recursos físicos, económicos e humanos.

Mais do que áreas o fundamental é adotar medidas que ultrapassem os constrangimentos sentidos pelas escolas e que dificultam o sucesso escolar. O número de alunos por turma é um exagero, pelo que vejo como fundamental a redução do número mínimo de alunos para se constituir uma turma.

A substituição dos docentes nas escolas tem sido muito morosa, no entanto parece que estão a ser tomadas medidas para ultrapassar este problema.

A Parque Escolar recuperou inúmeras escolas que ficaram dotadas de excelentes condições físicas. Contudo, criou uma enorme desigualdade que é urgente ultrapassar. Na mesma cidade temos escolas que estão dotadas de todas as condições de conforto para os alunos e escolas que têm janelas que não vedam, coberturas que deixam entrar água, …

No que diz respeito aos programas das disciplinas, espero que não estejam a preparar mais um festim para as editoras.

Os meus agradecimentos a ambos os Diretores pela sua disponibilidade .

Comentário

Como verificaram, ambas as escolas têm pontos em comum: um corpo docente estável; pouca indisciplina; um sistema de apoio aos alunos; e pais envolvidos com a escola.

No entanto existem algumas diferenças ao nível dos assistentes operacionais, contexto socioeconómico, infraestruturas e o contrato estabelecido com o Ministério de Educação.

Não existem segredos na educação, todos sabemos quais os pilares em que se alicerça o sucesso, não é seguramente uma coincidência existir uma semelhança nos itens referidos. São pilares para o sucesso, mesmo com algumas diferenças, mesmo com algumas dificuldades é possível chegar lá.

Sobre os rankings, trata-se de um produto cosmético que não mostra a realidade. Dá indicadores sim, mas apenas isso. Colocar uma ordenação numérica, com “carimbos” de direito de abertura de telejornal como a melhor escola ou a pior escola é de quem não percebe nada disto. Tinta superficial para ganhar audiências…

Tanto merece um louvor aquele que nunca tirou uma positiva e após muito muito esforço consegue atingir o sucesso, como  também merece aquele que após muito muito esforço atinge a nota máxima.

Artigo cedido pelo blogue ComRegras, com autorização dos autores.

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