Indisciplina (S)

No princípio, calcorreou o país de lés a lés, naquele corrupio de saltimbanco multitasking que é a vida de professor. Mais de uma dúzia de escolas diferentes de norte a sul, dois anos nas ilhas. Muitos olhos a fitaram, das carteiras à sua frente, em tantas dezenas de salas de aula, nas fragas gélidas de Trás-os-Montes, no calor tórrido do Alentejo, na morna verdura insular. Conhecer assim tantos filhos de tantas mães, de tão diferentes cepas e embalos, revestiu-lhe os ombros de uma força inquebrantável que a empurrou sempre caminho afora, mesmo nos momentos em que mais lhe apeteceu mudar de rumo, afinar agulhas para outras paragens.

Um dia benfazejo, em que as vontades dos deuses se enfileiraram num alinhamento perfeito, ficou efectiva numa escola. O júbilo da segurança finalmente alcançada não tardou a ser toldado pelo aperto angustiado do coração: a sua nova escola, onde o milagre da estabilidade se concretizaria, era uma escola de subúrbio feio, caprichosamente entalada entre dois bairros sombrios, de blocos tingidos de fuligem e penúria.

Ali, ao longo dos anos, aprendeu muito mais do que ensinou. Acostumou-se às ruas do bairro, às transações manhosas em plena luz do dia, mesmo ao virar da esquina, às rivalidades encarniçadas entre grupos, à vandalização de automóveis dentro do recinto da escola, às cenas escabrosas de insultos e ameaças aos professores em plena rua, à banalidade da intervenção policial. Habituou-se a encarar navalhas, canivetes, borboletas e estrelas ninja como itens previsíveis no universo do material escolar. Adaptou-se ao permanente estado de alerta, à postura defensiva, aos gestos cuidadosamente estudados. Aprendeu, sobretudo, que por via de um qualquer fenómeno incompreensível, a violência e a criminalidade frequentemente se transformam em ‘indisciplina’ assim que cruzam os portões da escola.

Vários anos passados, decidiu mudar. Por razões lá da sua vida, mudou tudo. Concorreu para longe, mudou de casa, mudou de cidade, mudou de escola. Quando a visitou pela primeira vez, cuidou que tinha mudado de universo também. Viu paredes de um amarelo vibrante, canteiros (com flores mesmo a sério), viu bancos de jardim pintados em tons de alegria, reparou num grupo de jovens a pintar um portão.

A sala de professores, à hora do intervalo, fervilhava de conversas e cheirava a café. Uma colega, no centro da sala, fazia uma narrativa exaltada, seguida com atenção pelos restantes professores. “É que nem estou em mim”, dizia, “como é possível, uma atitude destas – e logo comigo, que tenho sido tão compreensiva, que os tenho ajudado tanto! Marquei falta disciplinar, obviamente! É que nem hesitei”, reforçou, perante os acenos concordantes da plateia. “Eu toda cheia de cuidados, a passar exercícios de consolidação – sim, que os exames estão à porta e eles nem querem saber! – e aquele inconsequente atira-me esta, alto e bom som, para todos ouvirem: mas tanto trabalho? A setora está-se a passar!”

“A setora está-se a passar!!??”, repetia a queixosa, o olhar magoado e cheio de lágrimas. “Isto diz-se a uma professora que tanto se tem dedicado a eles? Uns ingratos, é o que eles são! Marquei-lhe falta – ah pois marquei!” 

A visitante ouviu a narrativa com atenção complacente. Sentiu um sorriso largo, sentido, nascer-lhe lá dentro do peito. Apeteceu-lhe confortar a colega, contar-lhe sobre o seu bairro, dizer-lhe uma ou duas coisas sobre a escola de onde vinha, relativizar a mágoa, presenteá-la com um enquadramento realista e relativizado do conceito de indisciplina.

Depois reparou-lhe no menear nervoso das mãos, na decepção do olhar, nos ombros tombados, no verdadeiro pesar que a situação lhe causara. Não se atreveu a apoucar, com o seu sorriso condescendente, a legítima indignação com que narrava o incidente. Ao contrário, presenteou-a com a mais genuína solidariedade. Era o que faltava, a sua indisciplina valer mais que a dela. 

MC

Cedido por Com Regras, com autorização da autora MC, autora do blogue Estendal.

 

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