O genérico dos ansiolíticos chama-se abraço

Médicos alertam para excesso de medicação em casos de hiperatividade e défice de atenção, com recurso a substâncias para tratar esquizofrenia. Têm 2 anos ou menos, algumas ainda estão em idade de berço, e são diagnosticadas como crianças hiperativas, com défice de atenção, agressivas ou retraídas. E cada vez mais estão a ser tratadas com anti-psicóticos e outros remédios psiquiátricos habitualmente prescritos a adultos com doenças graves do foro mental.” (D.N, 14 de dezembro de 2015)

Já deixei de contar pelos dedos os artigos que li sobre o excesso de medicação administrada; já deixei de contar pelos dedos as vezes que ouvi e ouço a comunidade na área da saúde mental a expressar a sua preocupação sobre os efeitos negativos que esta medicação pode ter, especialmente em idades tão precoces. E no entanto nos últimos anos os índices de prescrição têm aumentando para níveis surpreendentes.

Medicamentos como Ritalina, Rubifen e Concerta, cujo princípio ativo o metilfenidato (um estimulante semelhante a anfetaminas usado para ajudar a concentrar e acalmar) são usuais no vocabulário nas escolas, clínicas e hospitais. Prometem controlar comportamentos, acalmar professores e pais, por vezes desesperados, que alheios aos seus efeitos secundários e efeitos a longo prazo correm para “os especialistas” na esperança de conseguir um nome para o comportamento que consideram desviante. Na maior parte dos casos a medicação é prescrita e as crianças ficam mais rapidamente controláveis, mais “obedientes” mais “trabalháveis.” Como numa sociedade ocupada, sempre ocupada são necessárias medidas e soluções no imediato.

Não sou médica por isso não possuo um conhecimento minucioso sobre os efeitos desta medicação para me permitir alargar neste campo. Reconheço por discussões, colóquios e conversas com alguns pedopsiquiatras e psiquiatras que conheço, um efeito extremamente negativo que o excesso desta medicação poderá ter a longo prazo. Mas sou professora, professora de Educação Especial e sei, por experiência própria, qual a sensação de trabalhar com crianças reféns da medicação sem ter algo que a possa sustentar e observar por vezes a sua inexpressão, como se tudo o que lhe apresentássemos fosse igual, não tivesse importância nem soasse a nada. A criança simplesmente reconhece que é para executar, sem se mexer muito, sem emitir opinião, mas mais grave, sem refletir sobre outras formas de resolver a questão ou sugerir alternativas. É como se um capacete as tivesse fechado para o mundo.

O bom senso tem de imperar. E o bom senso, funcionando aqui quase como que uma lei de La Palice, diz-nos, de uma forma que espero ser consensual, que entupir crianças em desenvolvimento com esta medicação não é sensato. Não querendo também cair em fundamentalismos acredito que só em casos muito específicos é que deverá ser administrada, mas nunca em diagnósticos francamente pouco rigorosos e unilaterais que surgem às centenas existindo atualmente um chavão que abrange inúmeras crianças apenas com uma única designação – PHDA.(Perturbação de Hiperatividade e Défice de atenção).

João dos Santos diz-nos “Não reprimam as crianças, ajudem-nas a reprimir-se.”(…) a criança exige do adulto que a ajude a reprimir-se, para encontrar a segurança necessária ao seu desenvolvimento humano, à sua ânsia de atingir, igualar ou ultrapassar os adultos (…) é só necessário que as ajudem a reprimir-se.”

É recorrente falar-se da falta de espaço para brincar, da falta de regras, da falta de afetos. (António Coimbra de Matos diz-nos: “Mais amor menos doença”) da obrigatoriedade de ficar sentado na aula, quieto, atento, durante muito tempo numa sociedade que nos obriga, cada vez mais, a um ritmo imparável. Isto tem um nome, isto tem um contexto e espantem-se, não é hiperatividade, não é uma patologia, é uma contra reação a uma repressão latente e invisível.

Quem trabalha nas escolas conhece esta realidade, conhece os conceitos e estas expressões de comportamento. Não estamos a fazer nem a falar num trabalho sério quando reagimos a um problema selecionando chavões: “é hiperativo” é disléxico” fechando precocemente um diagnóstico sem conhecer causas, sem conhecer a história, sem fazer correlações. As políticas educativas não ajudam, é um facto, exigem já, exigem agora e exigem todos ao mesmo tempo. Em prol da saúde mental teremos de nos habituar a esperar e assumir que mudanças de comportamento e terapias são longas, mas o único processo para serem sedimentadas e não mascaradas.

E é preciso denunciar. Denunciar quem recebe uma criança num gabinete durante 1 hora num só dia e diz que sim, que é dislexia, que é hiperatividade, que é défice de atenção (e à vezes é tudo ao mesmo tempo) que é uma frase com números que parecem importantes e justificam o rótulo de 100 euros. Porque o João e a Maria agora têm um outro nome que lhes posso chamar e fazem parte da gaveta de tantas outras crianças com um rótulo ao peito. Mas um rótulo, em momento algum, deve ser mais importante do que uma intervenção.

Maria Joana Almeida

 

Cedido pelo blogue  ComRegras, com autorização da autora.

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