Os alunos do Agrupamento de Escolas de Carcavelos usam os telemóveis nas aulas – Entrevista exclusiva

Arupamento-Carcavelos-e1429565987507No passado dia 24 de setembro, foi notícia a permissão sobre o uso do telemóvel durante as aulas no Agrupamento de Escolas de Carcavelos. O ComRegras quis saber mais sobre esta iniciativa e por isso fizemos algumas perguntas ao Diretor Adelino Calado que amavelmente nos respondeu.

Entrevista ao Diretor Adelino Calado do Agrupamento de Escolas de Carcavelos

Recentemente o vosso agrupamento foi notícia por permitirem a utilização do telemóvel como ferramenta de trabalho em contexto de sala de aula.

1. O estatuto do aluno remete quatro alíneas, q), r), s) e t), no seu artigo 10.º “Deveres dos Alunos”, promovendo a não utilização do telemóvel. A vossa decisão de integrar o telemóvel tem fundamento legal?

Julgo que não existe nenhuma ilegalidade, como poderá ser analisado face ao que o Estatuto do Aluno determina, e ao que o Regulamento Interno do Agrupamento prescreve:

Estatuto do Aluno (artigo 10º)

q) Não transportar quaisquer materiais, equipamentos tecnológicos, instrumentos ou engenhos passíveis de, objetivamente, perturbarem o normal funcionamento das atividades letivas, ou poderem causar danos físicos ou psicológicos aos alunos ou a qualquer outro membro da comunidade educativa;

r) Não utilizar quaisquer equipamentos tecnológicos, designadamente, telemóveis, equipamentos, programas ou aplicações informáticas, nos locais onde decorram aulas ou outras atividades formativas ou reuniões de órgãos ou estruturas da escola em que participe, exceto quando a utilização de qualquer dos meios acima referidos esteja diretamente relacionada com as atividades a desenvolver e seja expressamente autorizada pelo professor ou pelo responsável pela direção ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso;

s) Não captar sons ou imagens, designadamente, de atividades letivas e não letivas, sem autorização prévia dos professores, dos responsáveis pela direção da escola ou supervisão dos trabalhos ou atividades em curso, bem como, quando for o caso, de qualquer membro da comunidade escolar ou educativa cuja imagem possa, ainda que involuntariamente, ficar registada;

t) Não difundir, na escola ou fora dela, nomeadamente, via Internet ou através de outros meios de comunicação, sons ou imagens captados nos momentos letivos e não letivos, sem autorização do diretor da escola;

REGULAMENTO INTERNO DO AGRUPAMENTO

Artigo 80.º – Equipamentos tecnológicos (telemóvel, tablet ou outro)

Quando expressamente autorizado pelo professor/Direção/supervisor, o aluno tem direito a usar equipamentos tecnológicos, de forma pedagógica e responsável, em contexto de sala de aula ou de outras atividades formativas, sempre que estes forem considerados como mais um instrumento de trabalho, em situações como:
1.usar como relógio;
2.usar como agenda;
3.utilizar como calculadora;
4.consultar a internet e utilizar outras aplicações a propósito de conteúdos programáticos abordados em aula.

2. Em que condições é que o telemóvel pode ser utilizado?

Quando expressamente autorizado pelo professor/Direção/supervisor, o aluno tem direito a usar equipamentos tecnológicos, de forma pedagógica e responsável, em contexto de sala de aula ou de outras atividades formativas, sempre que estes forem considerados como mais um instrumento de trabalho

3. A sua utilização é transversal a todas as turmas, ou está limitada a algumas?

A resposta anterior esclarece este ponto.

4. Ao ver a notícia, muitos professores devem ter pensado que é impossível os alunos não aproveitarem para enviar sms, jogar e afins. Isso acontece(u)?

Curiosamente, ou talvez não, estamos a 18 de outubro, e apenas se registou uma situação numa turma de 8º ano ! Convém recordar que a escola Sede tem 66 turmas e cerca de 1900 aluno do 5º ao 12º ano.

Claro que a penalização desta situação foi entendida como uma falta muito grave.

5. Foi estabelecida alguma consequência para o caso da utilização indevida do telemóvel para dissuadir o uso indevido do telemóvel?

Sendo considerada uma falta muito grave, o aluno que comete a infracção é de imediato confrontado com a situação, o respectivo encarregado de educação é chamado à Escola e a suspensão das actividades letivas é aplicada no momento.

6. Que balanço faz desta medida?

Sendo ainda prematuro avançarmos com conclusões muito completas, poderemos afirmar que o objectivo central que perseguimos está a seguir o curso que desejamos. Ou seja, proporcionar uma maior autonomia aos jovens e ao mesmo tempo consciencializar todos para a exploração adequada de um instrumento que apresenta muitas potencialidades.

7. A escola aos poucos e poucos vai ficando cada vez mais tecnológica. Como imagina a escola do futuro?

De facto a ambição de todos deveria ser essa, devíamos aproveitar a tecnologia para facilitar, orientando, as aprendizagens dos alunos. No entanto e se olharmos para o passado as alterações produzidas na Escola, nomeadamente na exploração das tecnologias elas foram muito lentas ou quase inexistentes.

Claro que os computadores, os ipad, os telemóveis irão com toda a certeza chegar à Escola, não apenas para se registarem faltas ou sumários, nem tão pouco para apenas se passarem alguns powerpoint. Mas para que tal suceda será necessário que os professores assim o entendam, sigam também eles formação adequada e deixem de ser tão “professores” e passem a ser mais “facilitadores de aprendizagens”.

8. E os professores? Estarão estes preparados e disponíveis para essa evolução?

Falta ainda muito….

9. Em abril quando lhe fiz uma entrevista, apelidei a vossa escola como a “Escola que não chumba”, agora surge a integração do telemóvel como ferramenta de trabalho. São as características específicas da vossa escola que o permitem, ou são as restantes escolas que não conseguem pensar/agir “fora da caixa”?

Penso que será um pouco de tudo o que afirma.

10. Além do que já referi, o Agrupamento de Escolas de Carcavelos tem mais algum projeto ou estratégia inovadora que mereça ser destacado?

Julgo que tudo o que defendemos decorre da atenção permanente ao que se investiga em educação e da opção que tomamos face a algumas estratégias que obtiveram sucesso em algum lado.

De facto o Agrupamento de Escolas de Carcavelos, mais do que “Escola que nunca chumba” pretende ser uma Escola em que a educação, as aprendizagens e os valores são os objectivos que perseguimos. Claro que algumas medidas assumem-se já como características que podem ser entendidas como inovadoras, mas elas apenas correspondem ao estudo, análise e consequente implementação das medidas que entendemos ser as mais adequadas para atingir o sucesso

Desde 2003 e ao longo destes já longos anos fomos confirmando alguns aspectos que agora se revelam com distintivos e quiçá inovadores na sua aplicação entre nós.

Foi assim com o terminar dos toques de campainha, com a responsabilidade dos livros de ponto atribuída aos alunos, com a responsabilidade dos momentos de substituição em falta do professor entregue aos alunos, com o não acreditar na retenção como a melhor forma de responder às dificuldades de aprendizagem, com a supervisão de toda a avaliação da aprendizagem de todos e cada um dos alunos, foi assim também com o acabar com as percentagens e ponderações na classificação dos alunos foi assim com o terminar com os “Trabalhos Para Casa” e a motivação para os “Trabalhos Em Casa” !

Enfim as características são de facto um pouco diferentes, talvez “fora da caixa”, mas os resultados finais revelam um sucesso que nos motiva a continuar.

Não é fácil explicar cada Escola sem a viver, e sem perceber como se desenvolve cada dia.

11. O que quer dizer com “acabar com as percentagens e ponderações na classificação dos alunos”?

O que fizemos foi tão só dar corpo, e forma ao que a legislação determina.

Diz a legislação que os professores ao longo dos períodos letivos vão construindo um juízo de valor sobre as aprendizagens dos alunos, que no final de cada período e ano se materializam em classificações quantitativas.

Assim, não atribuímos qualquer percentagem as aprendizagens que vão sendo efetuadas pelos alunos, nem ponderamos o ”teste”, ou o “relatório”, ou seja que instrumento de avaliação for.

De facto utilizamos os instrumentos de avaliação, tal como os médicos, como “meios auxiliares de diagnóstico” das aprendizagens, permitindo-nos a cada momento emitir uma opinião sobre a evolução que cada aluno vai tendo na sua aprendizagem.

Julgo, em tão poucas palavras, ter sintetizado o processo que seguimos na Escola.

Obrigado Diretor Adelino Calado pela sua disponibilidade.

Curiosamente, ou talvez não, o ComRegras já tinha feito uma entrevista ao Diretor Adelino Calado sobre o facto dos alunos não chumbarem nessa escola. Se quiserem relembrar a mesma, podem consultá-la aqui

Cedido pelo blogue ComRegras, com autorização do autor Alexandre Henriques.

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