Os perigos da Internet: mais bullying e ignorância …..

A primeira conexão ARPANET, aquilo que será historicamente o antepassado da Internet, terá sido estabelecida entre duas universidades americanas  às 22h30 do dia 29 de outubro de 1969 (fez há poucos dias 46 anos). Como o projeto era militar, às tantas, foi por aí que começaram “os perigos da Internet”.

Enérgico no optimismo face ao progresso do mundo (que convive há milénios com o seu lado mais negro) o título e o parágrafo acima nada têm a ver comigo.

Nunca poderia ser chamado de ludita, como aquele grupo de operários têxteis, de há 200 anos, que lutaram contra a introdução de máquinas, destruindo-as, por medo de elas lhes destruírem a vida.

A sua História pode ser melhor contada mas a verdade é que ficaram com a fama de quererem atrasar o progresso.

Por muito mau que seja o nosso mundo, nunca houve outro tempo melhor. E nas melhorias, lá está a Internet.

Se dissesse em título que a “perigosa Internet” é realmente ferramenta maravilhosa, que fascina, mais que assusta, nula atenção teria para o texto.

Está na moda destacar os perigos e os riscos mas nunca me canso de pensar que teria sido muito bom ser estudante do básico ou secundário, hoje, e beneficiar dela, mesmo com os problemas que possa trazer. E aprender a usá-la …. que é esse mesmo o ponto em causa na discussão dos perigos.

Por exemplo, há quem saliente que, na escola, uma das maiores mudanças foi no bullying.

Um artigo publicado na revista da Associação Americana de Psicologia concluiu que o bullying gerado e mantido pela Internet tem uma face mais “rural”, no sentido em que, no passado, antes da Internet, o bullying poderia ter essas duas tipologias: rural e urbano, conforme o grau de imersão na pressão social em que as vítimas se encontravam.

Como se pode ler num outro artigo de Maria Konnikova (Como a Internet mudou o Bullying?), que resume essa informação de investigadores: “De certa forma, no caso do bullying, a internet fez o mundo mais rural. Antes da internet o bullying terminava quando a vítima se retirava do ambiente em que se encontrava. Agora as dinâmicas do bullying são mais difíceis de conter e de ignorar. Se alguém sofrer assédio numa página de Facebook todos os do seu círculo social vão saber enquanto se mantiver a ligação à rede: uma linha intrincada e incessante de notificações torna-nos vulneráveis à vitimização.”

A conclusão no artigo é surpreendente:

“A prevalência do bullying pode não ter aumentado – de facto, uma recente revisão de dados internacionais sugere que a incidência até pode ter diminuído, cerca de 10% em todo o mundo. Mas sair dele pode ter-se tornado mais difícil”.

Ponto negativo para a Internet, que trouxe esse efeito, mas 2 ou 3 pontos positivos, por nos permitir ler o artigo todo  (e vale mesmo a pena, para responder à tal pergunta: como a Internet mudou o bullying?)  e por nos dar ideias para ajudar a entender e atuar nesta coisa estranha, que pode ser o paradoxo, de que o mudou para pior e talvez para melhor. Até por nos ter dado meios de conhecer ideias para melhorar o quadro.

Por exemplo, estas ideias acessíveis no site de um sindicato de professores americano que nos interpelam para aprender a  atuar como professores agentes de prevenção do bullying.

Ou por exemplo, a iniciativa da Fédération des commissions scolaires du Québec (FCSQ) de uma semana de prevenção da violência na escola, que aconteceu no início de Outubro, e em que o tema foi a violência verbal. Bem sei que o francês já foi mais popular (mas no canto direito da 1ª página sobre a semana há uma versão do site em inglês).

Um ponto positivo para a Internet que nos permite conhecer estas ideias e aprender com outros. E o tema da violência verbalmerecia mais atenção em Portugal.

Afinal, será que não intuímos que as dificuldades de comunicação aumentam a indisciplina? O site tem ângulos diferentes de informação para pais, alunos e professores.

No Brasil, o tema do diálogo relacionado com violência também merece atenção, por exemplo, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em que um projeto escolar aposta em promover mecanismos de diálogo entre os alunos, para evitar a violência (e para os que achem estas boas intenções, ilusão, a notícia refere as causas do projeto: no espaço de 2 anos, duas alunas foram assassinadas perto de escolas). Para gente iludida, e só sonhadora, o ponto de partida foi terrivelmente real.

Para aqueles que acreditam em abordagens mais legalistas a Internet gera uma torrente de informação.

E isso é mais um ponto positivo. Por exemplo, a Liga de defesa das liberdades civis de Nova Iorque festejou, dias atrás, a sua vitória no sentido de a lei ser mais atenta a questões de direitos humanos em matéria de indisciplina escolar. Um exemplo a ponderar, agora que há governo, ou está para haver, e vão ressurgir as tentações de mexer na nossa lei.

Outros pontos positivos, e que são úteis,  por exemplo, ter acesso aos documentos preparados para o mês de consciencialização do Bullying nos EUA (em inglês e espanhol) e, por exemplo, aos vídeos para ver que o foco da campanha este ano foi, não tanto a repressão e a reação escolar, mas a atuação dos pais e o problema dos alunos que assistem sem ajudar (Don’t be a bystander).

Ou saber que em França o lançamento de um programa de educação cívica está envolto em polémica.

A nova disciplina de Educação Moral e Cívica vai substituir o anterior programa de educação cívica e vai abranger as escolas básicas e secundárias. O currículo prevê 4 temas que a notícia explica melhor (com links para outras fontes) mas que se resumem assim: Sensibilidade (entender os sentimentos próprios e dos outros), Regras e direitos, Pensamento crítico eResponsabilidade social.

Os professores criticam, por causa da carga de esforço que lhes exigirá, e há quem diga que, aquilo que parece uma tentativa de reação ao caso Charlie Hebdo, pouco adiantará.

E mais pontos a favor da Internet é sabermos que há experiências em curso e bem sucedidas de usar jogos e recursos on line para a educação cívica e que, noutros locais, ensinar segurança digital a miúdos do 1º ciclo começa a ser prioridade e ato rotineiro.

E, talvez, assim, a Internet não aumente o bullying e a ignorância… 

E como afinal já não podemos voltar atrás,  aos impressionantes 100 sites que havia em 1975 há que assumir que a educação sobre ela é o caminho.

 

 

Cedido pelo blogue ComRegras, com autorização do autor.

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