“Professora, não tens sapatos de salto alto?

“Está bem, professora. Mas tu não tens mesmo sapatos de salto alto?!”

heelsSou professora de filosofia, no 1º ciclo. Sim, leram bem: filosofia para crianças, em escolas públicas. Um dia destes posso contar-vos do maravilhoso que é estar com crianças a reflectir sobre coisas como “o que é uma pessoa?”, “se as bonecas podem ter os mesmo direitos que os humanos” e “por que é que existe o amor?” com mini pessoas humanas entre os 5 e os 10 anos. E do perigoso que é, tornar as crianças conscientes do seu pensar e sentir desde muito cedo. Mas esse não é o tópico que me traz aqui hoje.

Venho falar-vos da forma como fui recebida na escola, pelos meus alunos. Quando entro no portão da escola costumo demorar em média uns 15 minutos até chegar à entrada do edifício: pelo caminho recebo abraços, beijinhos, sorrisos e também um ar de “oh não vamos ter filosofia hoje!”. E perguntas, costumo ser bombardeada com perguntas – pouco filosóficas, diria, mas que interessam à pequenada.

O Bruno, do alto dos seus 8 anos, encontrou-me um dia e perguntou: “professora, tu não usas sapatos de salto alto?” Ao que respondi, não, habitualmente não. Ele insistiu: “Está bem professora. Mas tu não tens mesmo sapatos de salto alto?” Soltei uma gargalhada. Comecei a rever mentalmente o conteúdo da minha sapateira e lembrei-me de uns sapatos de cunha. Olha, Bruno, até tenho. Mas normalmente, como vês, ando muito de ténis e de botas. É mais confortável para mim.

Ele sorriu e foi brincar. Uns dias depois, encontrou-me no corredor. “Olá Professora. Tu não tens malas?” Bruno, tenho sim. Às vezes até trago uma. “Sim, mas andas de mochila, como nós.”

Já não basta ser a professora de uma disciplina onde as respostas não são imediatamente corrigidas com certo e errado – são sim debatidas em grupo – ainda por cima uso ténis e vou de mochila para a escola.

Recordo-me das minhas professoras da escola primária (ainda sou desse tempo) e, agora que penso nisso, acho que nunca as vi de ténis ou de mochila. Talvez não fizesse sentido para elas: os tempos eram outros e a imagem da professora era outra. Sim, digo professora, pois constato empiricamente que a maioria dos profissionais do 1º ciclo são mulheres – e conto pelos dedos os professores que conheço.

Uma das minhas características, desde muito nova, é atender à forma como as pessoas se vestem. A minha mãe conta que, por exemplo, eu todos os dias referia aquilo que a professora tinha vestido e comentava também a roupa dos meus colegas. Confesso que até hoje nunca consegui perceber como é que a minha amiga da primária, a Raquel, conseguia usar meias amarelas quando a sua roupa era maioritariamente em tons de azul. “As calças tapam, quase não se vê”, dizia-me ela. Mas o facto é que eu via.

Os meus alunos já me aceitaram, na estranheza que comporto: sou professora de filosofia, visto quase sempre de preto, tenho várias tatuagens visíveis e costumo dizer-lhes que “a filosofia é fixe”. Peço-lhes diariamente que me tratem por Joana, ao invés de “professora”. Perguntaram-me o motivo. Respondi com um exemplo: imaginem que eu agora vos tratava a todos por aluna ou aluno. “Mas nós temos nome”, gritaram em uníssono. Eu também, meus amores. Eu também.

Um dia destes conto-vos sobre uma pergunta importante que um dos alunos fez. “Professora, tu não tens filhos?” Antecipo a resposta: não, não tenho. E não sou maria incapaz para ter um.

Joana Rita Sousa, autora do blogue JoanaRSSousa

 

Créditos:

Artigo original #MariaCapaz

Foto da autora marta poppe fotografia

9 Comentários
  1. Noemia Pereira 2 anos atrás

    Adorei! Continua assim Joana e que os nossos meninos aprendam a pensar e a perguntar sem medo das respostas.

    • Joana Rita Sousa 2 anos atrás

      Obrigada 🙂

  2. Lia Gonçalves 2 anos atrás

    Muito bom! Adoraria ter uma professora de filosofia para os meus alunos…

    • Joana Rita Sousa 2 anos atrás

      🙂 obrigada

  3. fernando 2 anos atrás

    Olá Joana, apresento-me, chamo-me Fernando e temos como ponto comum sermos professores de Filosofia. Eu, porém no secundário. Como conseguiste a proeza da Filosofia na primária e, especialmente, no ensino publico? Apreciei o teu texto.

    • Joana Rita Sousa 2 anos atrás

      olá, Fernando 🙂
      “tropecei” na filosofia (para crianças) uns anos depois de me licenciar e confesso que foi um tropeção muito feliz
      felizmente já há muita abertura para a FpC (filosofia para crianças) em várias escolas – públicas e privadas
      “a proeza” foi conseguida com muito trabalho, formação constante e a humildade de querer sempre aprender, acreditando e defendendo esta paixão: a de levar a filosofia aos “miúdos” 🙂

  4. Chica Jorge 2 anos atrás

    Olá… gostei imenso do seu texto… adorei que haja filosofia em algumas escolas do 1º ciclo… sou professora do 1º ciclo, embora goste de me chamar professora primária… por muitas razões que não vou explicar, mas sou também a professora de mochila e ténis/botas…. dê-me dicas para a filosofia que às vezes faltam-me os temas e há momentos que gosto de dedicar à discussão coletiva sem respostas certas e erradas!

  5. Joana Rita Sousa 2 anos atrás

    sim 🙂

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