Sem Rótulos | “Quando a escola deixar de ser uma fábrica de alunos”

Li recentemente um artigo intitulado “Quando a escola deixar de ser uma fábrica de alunos”. O título era promissor e o conteúdo do texto não defrauda as expetativas. Na realidade, reúne um conjunto de ideias e reflexões com as quais também me identifico sobre o atual modelo educativo.

IMG_2163O artigo alerta para o perpetuar de um paradigma escolar assente na revolução industrial em pleno séc. XXI que não tem obedecido ao progresso social nem às reais necessidades das nossas crianças. Mostra ideias e reflexões sobre qual o caminho a seguir apresentando modelos que são utilizados noutros países (destaque no modelo educativo referência – o modelo finlandês) e sugestões com base em salas protótipo e projetos pioneiros.

Não querendo fazer um resumo do artigo (deixo o link para consulta) penso que é fundamental salientar três ideias chave e que podem ser o ponto de partida para várias reflexões.

http://www.publico.pt/temas/jornal/quando-a-escola-deixar-de-ser-uma-fabrica-de-alunos-27008265

“Ensina-se o grupo e não o indivíduo, o que, muitas vezes, leva a que alguns jovens não compreendam o que está a ser ensinado e percam o interesse. Há 50 anos, as pessoas repetiam as orações em latim e não percebiam o que estavam a dizer. Hoje, acontece o mesmo com os alunos”.

O conceito pedagogia diferenciada é conhecido no mundo de educação e consensual relativamente à importância da sua utilização. É uma necessidade constante e a única real, porque evidentemente os alunos não são todos iguais. Estas disparidades acentuam-se quando se tentam enquadrar crianças com diferentes vivências, diferentes perfis de funcionalidade e exigir que à mesma hora, num determinado tempo, sejam capazes de chegar às mesmas metas de aprendizagem. Um professor sabe que isto é muito pouco provável e em última instância, não estamos a respeitar o perfil do aluno, estamos apenas a responder a um modelo económico. Uma das imagens que costumo utilizar com frequência e que traduz uma representação clara desta citação é a ideia de pensarmos em nós próprios numa aula de mandarim. Não conseguiríamos compreender absolutamente nada. Todo o paradigma assente numa grande parte do nosso modelo educativo dificulta uma informação que chegue a todos existindo, atualmente, muitas crianças que encaixam nesta imagem.

“Hoje, também é necessário transformar a escola de acordo com os mesmos princípios e em benefício de uma educação à medida de cada aluno, garantindo a equidade, a igualdade de oportunidades e a inclusão social.”

No último texto que aqui publiquei chamei a atenção para as necessidades educativas especiais e o seu enquadramento legal. A escola é promotora de modelos sociais e é sua obrigação responder à evolução social criando uma igualdade de circunstâncias para todos. O mundo evoluiu para deixar de esconder e não educar de crianças jovens e adultos com NEE para uma sociedade que olha de frente para as diferenças existentes (ou deve olhar) sem preconceitos. Legalmente as portas deixaram de estar fechadas, a sociedade deve por isso adaptar e, principalmente, insistir em formação para mudar mentalidades e por conseguinte atitudes.

 “Hoje o professor perde muito tempo com tarefas menores do ponto de vista educativo, e a tecnologia pode permitir aliviar o professor dessas actividades rotineiras e pouco significativas do ponto de vista da profissão docente e deixá-lo livre para aquilo que é fundamental: a relação com a criança e com o jovem no acesso ao conhecimento.”

O cansaço instalado na comunidade escolar; a desmotivação de professores e alunos; a exclusão passiva de muitos alunos e uma não correspondência às reais necessidades de todos que habitam diariamente a escola tem levado à rápida degradação dos princípios da instituição escolar.

Os professores vêem-se rodeados de imposições constantes e encarregues de uma multiplicidade de papéis que lhes nega a disponibilidade para se dedicarem ao essencial, os seus alunos. Para frustração dos bons profissionais, os alunos reduzem-se a números deixando de ser o João, a Maria, a Sofia, o Manel. Ao retirar a humanidade, a escola acaba por compactuar com esta situação.

No mundo da educação muito se tem falado sobre a necessidade de renovar. Este artigo menciona uma ideia interessante, a ideia de “refundar” a escola, refundar currículos, refundar metodologias, menos teoria, mais prática. Quem leciona sente de facto que muitas vezes acabamos por seguir uma metodologia mais passiva, não porque acreditamos ser melhor, mas é o exemplo a que mais estivemos expostos e fomos habituados. Exerce uma força de memória “muscular”. A verdade é que estamos também reféns de políticas educativas e económicas que não tem possibilitado mudanças, principalmente a flexibilidade de currículos que permita uma maior pluralidade de metodologias.

No entanto penso que é necessário muita sensatez nesta mudança, não porque a mudança não seja necessária (pelo contrário, é urgente), mas porque acima de tudo não é apenas uma mudança de metodologia, é uma mudança de mentalidade e esta é sempre mais demorada.

Esta sensatez provém, sobretudo, de usar metodologias sentidas. Considero preferível um professor que domine um método e o sinta (pois consegue transmitir mais paixão) do que não o dominar de todo e criar angústias.

Há uma história muito sui generis, contada por um colega que muito admiro, que revela na perfeição esta necessidade. Há alguns anos atrás quando estava nas equipas de apoio às escolas foi visitar uma escola com a metodologia de Freinet. Numa das salas a professora perguntava a um dos alunos o que gostava de fazer naquele dia, ao qual o aluno respondeu que queria matemática. A professora interpelou-o e disse para ele pensar melhor, que se calhar ele queria português. O menino insistia na matemática e a professora continuava a insistir no português.

Esta história foi apelidada, humoristicamente como “Freinet à força” muito revelador de uma atitude imposta e não sentida resultando numa atitude contraproducente.

Os recursos são importantes, mas a verdade é que com mais quadro eletrónico, com menos projetor, é a qualidade da relação professor-aluno que faz a verdadeira diferença.

Maria Joana Almeida

Cedido pelo blogue ComRegras, com autorização da autora.

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