Trrrrrrriiiiiiiiiiiim – e eis que começa

O toque anuncia o encontro com o grupo. Meninas e meninos do 4º ano, com um olhar curioso – nem que seja para o nome da disciplina. Filosofia? Isso é o quê?

Fui para a sala esperá-los. Ninguém me aparecia. Deixei passar uns dois minutos, espreitei no corredor. Ninguém.

Desci as escadas e perguntei à auxiliar Maria pelos meus meninos. “Trrrrrrriiiiiiiiiiiim – e eis que começaAh, desculpe, professora, isto hoje é o primeiro dia. Acho que eles estão à sua espera ali no átrio, em fila”.

E lá fui eu.
“Vamos subir, meninos?”, perguntei.

Olhavam para mim. Era a primeira vez que nos víamos, cara a cara. Eu já tinha espreitado as suas caras e os seus nomes, no livro de registo. Comecei logo a imaginar que sonhos, que perguntas iria encontrar por detrás daqueles rostos.
“Sim, estou à vossa espera para a aula. Vamos?”, insisti.
Uma das meninas, a primeira da fila, olhou-me de uma ponta à outra: “Tu és professora?”
E eu sorri e disse: “Eu sei, se calhar não pareço muito uma professora, mas sou. Vamos?”

Eles sorriram. Subiram as escadas com algum barulho de fundo. A sussurrar coisas. Consegui ouvir um “Mas isto é filosofia. Oh e o que é isso?”.
Já sentados nas suas cadeiras, na sua sala de aula, continuavam a olhar com estranheza para a professora que fazia perguntas e pedia desculpas antecipadas por prever trocar os seus nomes nas próximas semanas. “É que vou ter cinco turmas, com meninos diferentes e é muito provável que vos troque os nomes. Posso contar com a vossa ajuda?”

Filosofia: uma palavra comprida e estranha assumiu lugar no quadro branco. Depois, o símbolo da filosofia, mais curtinho e igualmente estranho. “Chama-se phi”.

Juro que gostava de poder fixar, em fotografia o ar de estranheza da criançada. Franzem as sobrancelhas, arregalam os olhos. Também sorriem e riem, pela estranheza que lhes invade o sentido.

Como é que dizia o Fernando Pessoa? Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

E se tudo é novo para eles, para mim também se vivem dias de novidade. De ajustar os meus planos de aula a cada grupo, de memorizar os nomes de cada um, de atender às suas expectativas sem comprometer aquilo que é o trabalho filosófico. Gerir o processo de diálogo de vinte e tal cabeças e corações que pensam e sentem e têm algo a dizer sobre o mundo que está à sua volta. Mostrar-lhes que o espaço que vamos criar, em conjunto, se quer livre e responsável, autónomo e consciente – com o contributo de todos.
Há grupos que caminham mais rápido do que outros. O importante é que esse tempo e ritmo seja respeitado, sem atropelar ninguém – nem a própria filosofia.

Trrrrrrriiiiiiiiiiiim. Toca para a saída. Antes de abandonarmos a sala, mais uma coisa estranha acontece: peço-lhes para espreguiçarmos em conjunto. Aprendi isto com a Dina Mendonça e cada vez mais dou valor e importância a este momento para encerrar os trabalhos. O trabalho filosófico cansa, mexe connosco, agita-nos. Espreguiçar faz-nos relaxar e descontrair.

Em 3, 2, 1: espreguiçar! Até para a semana.

Cedido pela autora Joana Rita Sousa, do blogue JoanaRSSousa

 

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